Lembro-me
como tivesse sido hoje. Estava no autocarro quando entraste. Estava sentada num
banco junto à janela. Tive oportunidade de fazer de conta que não tinha dado pela tua presença. Seria demasiado fácil para mim não me fazer notar. Algumas vezes observei pessoas que ao entrarem num meio de transporte estarem mais interessadas em ocupar um espaço do que percorrer os rostos dos companheiros de viagem. Optei por falar. A impulsividade é uma característica
que me acompanhará até ao final dos meus dias. Passados mais de vinte anos
sobre este acontecimento congratulo-me de ter tomado a melhor decisão.
Arrepender-me-ia neste preciso momento se porventura recordasse o episódio sem te
ter cumprimentado. Inesperadamente sou invadida por uma desassossegada nostalgia.
Uma espécie de tristeza serve-me de companhia durante a curta viagem.
Estou de novo dentro de um autocarro e sentada num banco junto à janela como tanto
gosto. Desta vez porém tenho a certeza que não irás entrar pela porta e não serei
assolada por qualquer espécie de incerteza. Também no céu o sol já não brilha
como outrora, a lua vai ocupando lugar na noite escura como breu. Senti de
repente uma saudade dorida e uma lágrima atrevida não se conteve e rolou pela
face, após um pálido sorriso. No outono da vida, por instantes, dou por mim, a amaldiçoar
o tempo que acaba com a magia da adolescência, onde tudo muda demasiado rápido.
Cada vez mais verdade que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem”.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Feliz Aniversário!
Ontem
tirei da estante o livro que me emprestaste. Já o tinha lido há muitos anos.
Talvez há quantos a nossa amizade existe. Na época li o livro em poucos dias. O
autor do livro foi um dos maiores expoentes do modernismo em Portugal e um dos
membros da Geração d’Orpheu. Talvez com uma saudade já distante recordo o
início da nossa amizade. A nossa amizade faz parte daquelas coisas boas da vida
que acontecem, que perduram na memória e nem o tempo permite o
esquecimento pela forma inesperada como surgem. Connosco foi assim uma amizade
que nasceu do puro acaso. O que gostei desde o início foi da intensa troca de
palavras e do fluir das tuas ideias que revolucionaram a minha forma de pensar
as coisas. Confidencio-te que na época algumas das tuas ideias me pareciam
demasiado vanguardistas. Hoje amigo já quase que tomo as ideias como minhas
pelo modo como delas me apropriei. Talvez por isso em silêncio mantenho contigo
uma assídua troca de palavras. Não me digas que não dás conta desta dialéctica.
Digo-te meu amigo foi, possivelmente, por causa destas coisas que ontem te
consegui rever através do desfolhar das páginas do livro. Sim, estou a falar da
“Loucura” de Mário de Sá Carneiro, a temática é algo que nos assenta que nem
uma luva. A leitura ontem foi fugaz. Era escasso o tempo que dispunha para
saborear as palavras, não li mais de dez páginas. Gostei dos teus sublinhados.
Marcaste a vermelho com um traço de lápis cuidado algumas palavras do autor.
Tentei em alguns momentos perceber a razão de sublinhares umas palavras e não
outras. Com o pretexto deste exercício voltarei ao livro sempre que desejar ir
ao encontro dos teus recônditos pensamentos e serenamente irei viajar contigo
aos primórdios da tua essência. Ocorreu-me agora que nunca contabilizei o nosso
tempo. Refiro de antemão que a contagem do tempo não é coisa muito importante.
Desde o início da nossa amizade assumi que há muito nos conhecíamos. Também me
impressionou o facto de tu uns anos mais novo que eu possuíres um conhecimento
mais avançado do que a idade cronológica poderia indicar. Também, devido a esta
tua característica reformulei alguns padrões pelos quais me regia. Não sei se
algum dia informei mas durante alguns anos não desenvolvi amizades com pessoas
mais jovens do que eu. Há muito que não penso mais assim. A experiência de vida
ensinou-me que cada idade encerra os próprios conhecimentos e algumas vezes a
idade cronológica tão pouco corresponde à idade física ou mental. Talvez por
isso tenho alguma dificuldade em assumir como minha a imagem que o espelho
reflecte. Também por isso privilegio a criança que existe em mim. Pensar na
infância transporta-me para uma espécie de jardim secreto onde me refugio
sempre que necessito de paz. Um dia quando regressares desse local distante não
iremos sentir dificuldade em continuar alguma conversa inacabada. Com certeza
que não me recordarei da temática da altura, mas entre gargalhadas e uma frase
que talvez nos anos seguintes faça história pela erudição do raciocino iremos
conversar até mais não aguentarmos. A esta hora da narrativa deves estar
curioso do porquê de tamanho discurso. Amigo, esta foi a forma singela de te
homenagear pelo teu aniversário! Parabéns e que contes muitos anos, com saúde,
sucesso e junto das pessoas que amas.
sábado, 6 de julho de 2013
Olhos nos olhos
Senta-te
junto de mim e olha-me nos olhos. Não digas nada deixa o teu olhar adivinhar as
minhas palavras. Comunica em silêncio com o pensamento, não quero que o som das
frases estrague este momento. Silêncio e os olhos são uma perfeita combinação. Sussurro-te
ao ouvido: - Os teus olhos são lindos! Sorris. Pareces concordar e
reciprocamente devolver-me o cumprimento. Olho e torno a olhar. Tu fazes o
mesmo. Deixa que eu viaje pelos olhos ao interior do teu pensamento. O momento
é só nosso. Estamos felizes neste dia, a paz calmamente, vai-se instalando. O que queres fazer, pareces perguntar. Não respondo. Já disse e volto a repetir,
terás que adivinhar, porque a minha boca não se abrirá, não quero que as palavras
estraguem este encantamento. Tu e eu frente a frente, olhos nos olhos. Quando os
teus olhos olharam os meus, o tempo parou de contar as horas, os minutos, os
segundos para poder olhar para nós. O nosso tempo é o que fazemos com ele.
sábado, 29 de junho de 2013
Portugalidade
Sinto-me
privilegiada por nascer e viver em Portugal. Atualmente no meu país as condições
de vida estão a piorar de ano para ano em comparação com as expectativas
de crescimento económico geradas num passado recente. Contudo, vive-se razoavelmente bem atendendo aos padrões de
qualidade de vida europeus. Os portugueses enquanto povo são herdeiros de uma
riqueza genética sem precedentes. Enquanto povo temos uma abertura que nos é
intrínseca para conviver e dar a conhecer o melhor da nossa cultura a outras pessoas
de outras nacionalidades. Pessoalmente podia viver em qualquer parte do
planeta. Mesmo nos recantos do mundo onde a fome e a miséria convivem (infelizmente)
de mãos dadas eu teria lugar. Essencialmente porque gosto de pessoas. Considero
que o nosso lugar no mundo só faz sentido se existir um espirito de missão
associado. Desconheço até ao momento o que seja viver em condições extremas, em
lugares onde coisas básicas, como seja ter acesso a água potável, eletricidade,
alimentação, a cuidados de saúde e de educação não estejam disponíveis para a
totalidade da população. Porventura se algum dia a rotina tal como a conheço
for quebrada creio que não sentirei qualquer choque civilizacional ao deparar-me
com outro tipo de realidade. Como muitos portugueses nasci com espirito de
missão, considero que é através do amor que se estabelecem os laços de compromisso
e de entendimento entre os povos. A Portugalidade, representa o melhor de
Portugal e dos Portugueses; sinónimo da universalidade, é uma ponte de
intercâmbio que permite a ligação com outros povos com culturas muito
diferentes da nossa.
sábado, 22 de junho de 2013
Relógio do Tempo
Muitas
das vezes para não escrever todas a vezes a mudança só ocorre em situações
limite. Quando em muitos dias queremos mudar o rumo dos acontecimentos e as
tentativas são goradas, possivelmente não estamos nós próprios convencidos da
necessidade dessa mudança ocorrer. Falo de condições extremas sem meios-termos
associados. Situações em que não aguentamos mais o marasmo em que nos
encontramos e a situação terá que se resolver para um lado ou para o outro. No meu íntimo reina a paz. Este sentimento de quietude
foi alcançado depois de fervorosas negociações. Talvez a palavra negociação no
caso em concreto não é o termo adequado prefiro cedência, sim cedência
aplica-se melhor nas relações entre humanos. Quando existe cedência de uma parte
e outra parte todas as partes saem vitoriosas.
Não há vencedores e tão pouco vencidos. As relações sociais levadas ao extremo
podem partir para um dos lados e, quando tal não sucede, ficam mais fortes, em
consequência de todas as partes envolvidas ganharem novos conhecimentos. No percurso
de vida, não existem situações idênticas, por mais que os acontecimentos se
assemelhem uns aos outros, o que acontece em determinado momento, é sempre algo
original, um novo acontecimento. Basta prestar atenção, para situações aparentemente
“semelhantes”, uma receita já utilizada no passado pode não ser adequada à
resolução da situação presente, pelas razões há pouco enunciadas, os atores
envolvidos, o ambiente onde a ação decorre não será exatamente igual, o próprio
pensamento face ao acontecimento terá certamente evoluído com o passar do tempo
entre um e outro episódio. Não haja dúvida o que acontece todos os dias é uma nova
história em que acrescentamos um pouco mais ao nosso livro da vida, é sempre uma
nova página. Não desperdicemos o
tempo. Não desperdicemos a nossa
vida com futilidades,
inutilidades, banalidades,
egoísmos. O relógio do tempo não para. A vida tem que ser bem aproveitada, onde
todos os segundos contam e onde as segundas oportunidades poderão não existir.
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