Sentada
numa cadeira colocou as mãos entrelaçadas sobre a cabeça como quisesse com este
gesto proteger-se dos seus próprios pensamentos. Logo ela que tinha por lema:
viver a vida intensamente, como se o amanhã não existisse. Observei-a com a distância
que o olhar permite, não quis em nenhum momento perturbar-lhe o silêncio. Pela
forma como se contorcia na cadeira percebi que ela não estava nos seus melhores
dias. Conheço-a bem demais para que haja a necessidade de palavras para exprimirem
o seu estado psicológico. Entre amigas verdadeiras, até os silêncios transmitem
mensagens, para outros indecifráveis. Intimamente até sabia aquilo que a
perturbava. Talvez por isso considerei, ser mais um motivo para a deixar
percorrer aquele caminho interior que só o próprio deve trilhar. Ela sabe
intimamente se precisar de alguém ter-me-á a seu lado. Talvez mais tarde ela me
chame para revisitarmos algumas lembranças. Talvez mais tarde eu lhe recorde a
força que ela possui e que tudo aquilo que agora lhe é desconfortável, dentro
de um tempo pertencerá ao passado. Neste instante até este meu monólogo
interior parece reforçar o sentimento de amizade que nos une. Contudo ela de
tão enredada nos pensamentos, tão pouco deu por mim. Observo-a. Tem o
semblante demasiado carregado, fico triste de a ver assim. Numa ocasião confidenciou-me
que já não acreditava na felicidade, disse-me que a viveu tão intensamente num
tempo, que esgotou essa sensação de bem-estar. Retorqui e disse-lhe que a
felicidade é um estado de satisfação onde pequenas coisas podem fazer a
diferença. Contei-lhe que por vezes, ainda dou por mim a sorrir sem motivo
aparente e essa sensação é boa de sentir. Ao ouvir as minhas palavras que tentavam
contrariar um estado de espírito distante, fitou-me nos olhos e, disse-me, que
todos os sentimentos só atingem os objectivos, se forem verdadeiros. O tempo,
por exemplo, esse eterno amigo, que suaviza as mágoas, nem sempre está do nosso
lado, diga-se no tempo certo. Parece que tudo acontece realmente quando tem de acontecer
e, nem sempre as historias têm o final que se deseja. Continuou, a falar pausadamente, como se medisse todas palavras: por vezes sentimos uma sensação de vazio interior que parece ser preenchido
por emoções confusas, tipo uma manta de retalhos. Faz-se o que se pode e nem sempre o que se
deve para seguir em frente. Com o tempo aprende-se a contornar os obstáculos
embora alguns persistam em atrapalhar a caminhada. Muitas interrogações ficarão
sem resposta. O passado é muitas vezes eleito o melhor dos tempos, sem que possuamos a noção
que o presente é realmente tudo o que verdadeiramente importa. Palavras sábias, pensei...
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Porque o céu tem a cor dos teus olhos
Podia
ter ido a uma Igreja porque gosto da tranquilidade dos Templos, mas não fui.
Segui o mesmo ritual de muitos dias dirigindo-me ao banco de jardim de onde
avisto o céu e o mar. Da minha varanda improvisada sobre o Tejo observo o azul
do céu a confundir-se com o do mar. A cor azul que tanto me recorda os
olhos da Lina. Há uns tempos atrás as notícias sobre a Lina, não foram aquelas que
gostaria de ter escutado. A Lina ontem, 4 de junho, despediu-se de nós. O
sofrimento que o cancro lhe causava já lhe feria a alma. Lamentei a sua partida
com o coração muito apertado. Hoje sinto-me triste. Não fossem as lágrimas que
ajudam a atenuar a dor sentir-me-ia muito pior. Em memória da Lina recuo até à
minha infância. A minha querida Lina, uma mulher pequena, de cabelo louro que
irei sempre recordar com muito carinho. Naqueles tempos felizes a família
Santos Borges era como me pertencesse. Gostava tanto da boa disposição daquela
gente durante os convívios. Recordo que a Lina era exímia na confeção do puré
de batata com almôndegas. Acho que durante muito tempo este foi o meu prato
favorito. Não sei se a Lina morreu feliz…uma daquelas paixões, que presumo
arrebatadora a um dos membros da família Santos Borges fez com que deixasse
para trás uma outra vida familiar onde se incluíam dois filhos. Enquanto fui
criança jamais tive perceção dessa sua escolha. Estou certa que o fez dando voz
a um grande amor… também, asseguro, que aquela peça do seu puzzle jamais foi
substituída por outra. Sentia-se a nostalgia na voz quando falava dos filhos.
Talvez falasse para acalmar a dor que trazia no coração. Talvez tenha comentado
o assunto comigo porque das crianças eu era a mais velha – lamento, não ter dado a importância devida às suas palavras mas aos dez ou
onze anos o entendimento das coisas sobre adultos era proporcional à minha
existência. A minha irmã mais nova
também recebia muitas atenções da Lina e do seu companheiro. Devido ao seu
comportamento tranquilo a minha irmã mais nova acompanhava-a muitas vezes no
seu local de trabalho. A Lina confeciona casacos de malha e por ser muito
profissional no seu oficio não lhe faltavam as encomendas. Fruto do amor da sua
vida a Lina teve outra filha, hoje uma mulher. Estas singelas palavras
destinam-se a homenagear uma a minha querida amiga pelos bons momentos que
partilhamos em conjunto. Tudo o que agora desejo é que esta guerreira descanse
eternamente em paz.
domingo, 25 de maio de 2014
Interrogações
Como
foi possível outros escrevessem sobre nós? Li as frases uma a uma e depois cada
parágrafo. Eu que pensava que aquele momento só a nós pertencia... Mas
agora até o mais ínfimo pormenor foi revelado. Quem de nós dois foi incauto e
permitiu que outros captassem a nossa magia? Estaríamos os dois tão distraídos
que perdemos a noção que uma multidão nos observava? Neste preciso momento
recordo que as palavras até foram parcas e nem sei mesmo se elas chegaram a
existir. Como foi então possível que alguém escrevesse sobre nós? Que
individualidade essa tão sensível que captou a intensidade daquele momento?
Como terá conseguido tamanha proeza? Foi através do brilho dos nossos olhos que soube as palavras que guardavamos no coração? Durante séculos só de fugida e, apenas
em momentos furtuitos voltei em pensamento ao mesmo lugar na tentativa de
vivenciar as emoções sentidas. Contínuo inquieta e com demasiadas interrogações
a pairarem na alma. Será que foi o calor que emanou dos corpos que permitiu que
outros soubessem de nós? Sempre que a dor da saudade bate mais forte, volto
sozinha ao lugar de onde não devia ter saído para contigo ficar. Mesmo quando
partiste para um lugar que desejo melhor continuei-te a sentir,
como se a tua viagem nunca tivesse ocorrido. Não podendo ter partido contigo
porque a vida continuou queria que aquele instante de magia só a nós dois
pertencesse. Por isso revi nas páginas de um livro que não fui eu nem tu que o
escreveu a imagem daquele instante que de tão nosso se perpetuou pelos tempos.
Tivesse eu escrito aquele capitulo as palavras não seriam outras mas iguais. O autor
de tão belas frases teve a arte e o engenho de se antecipar e descrever o amor
na sua essência universal. Embora eu quisesse ser egoísta para que no mundo
ninguém soubesse de nós, descobri que as emoções se transcendem e, não se
deixam aprisionar por ninguém. Também, talvez, por isso, os amores verdadeiros
sejam eternos e, vivem para além do tempo...
sábado, 24 de maio de 2014
Tem dias...
Os
dias custam a passar. Em cima da mesa da sala, as peças de um grande puzzle
desfeito, ainda não ganharam forma. Sento-me confortável numa cadeira e chego à
conclusão que a dificuldade do meu puzzle está determinada tanto pela imagem
como pelo número de peças ao meu dispor. Penso na vida. A música ecoa pela
sala, mantendo-me conectada com os meus propósitos. Murmuro para mim que ainda
tenho umas quantas contas a ajustar, ao mesmo tempo que encaixo com mestria as
peças umas nas outras. A vida assemelha-se a um grande puzzle, quanto maior os interesses e desafios, mais tempo se
leva a
atingir o objetivo. Não me arrependo das minhas atitudes, porque procuro a sensatez
antes de uma tomada de decisão, no entanto, admito que tenho alguns pedidos de
desculpa a dar e, outros tantos a receber. Mas, essencialmente, só me preocupam
aqueles pedidos que tenho que fazer, assuntos alheios não me dizem respeito. Todos
os dias dou passos em frente para que a minha consciência se liberte das insignificâncias
da vida. Como habitualmente encontrarei o tempo e o lugar para clarificar
pensamentos. Se os minutos não demorassem tanto a passar, possivelmente, hoje seria
o dia para arrumar uns quantos assuntos... Mas, não tendo chegado o tempo certo,
continuarei, aguardar, com atenção, a sequência e formato das peças do puzzle da
vida que se repetem.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Conversando...comigo...
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